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Ultramaratona para amadores: por que sua primeira de 50km é possível
A primeira pergunta de quem ouve a palavra "ultramaratona" é sempre a mesma: isso é coisa de gente normal? A resposta curta é sim. A longa exige entender o que diferencia uma ultra de uma maratona, por que a corrida amadora brasileira está virando ultra nos últimos anos e o que muda na cabeça (e nos pés) de quem cruza essa linha pela primeira vez.
Ultramaratona, na definição mais antiga e ainda usada pelas federações, é qualquer prova de corrida acima dos 42,195 km da maratona. Pode ser 50 km, 80 km, 100 km, 160 km (as famosas 100 milhas) ou formatos sem distância fixa como o backyard ultra. O Brasil tem ultras em estrada, em trilha, em deserto, em ilha e até virtuais. O calendário está crescendo e, ao contrário do que parece, a maioria dos finalistas é gente que trabalha das 8 às 18 e treina de manhã cedo ou no fim do dia.
Por que tanta gente comum está entrando na ultra
Três coisas mudaram nos últimos cinco anos. Primeiro, a popularização do trail running trouxe distâncias maiores como hábito. Quem fazia 21 km no asfalto descobriu que 30 km de trilha técnica cansam mais do que uma meia maratona plana, e isso destravou a cabeça para distâncias maiores. Segundo, surgiram provas com cortes generosos, 14 a 20 horas para terminar 50 km, o que tira a pressão de pace e abre espaço para quem corre devagar. Terceiro, a oferta no interior do Brasil cresceu. Cidades pequenas viraram sede de ultra porque o trajeto rural é barato de organizar e bonito de correr.
O resultado é um pelotão muito mais diverso do que o de uma São Silvestre. Tem gente de 30, de 50, de 60 anos. Tem quem nunca correu uma meia antes e foi direto para o 50 km porque um amigo arrastou. Tem ex-fumante, tem quem perdeu 20 kg, tem mãe que terminou na frente do filho. A regra "você precisa ter feito várias maratonas antes" caiu por terra. O que precisa, de verdade, é tempo de treino acumulado.
Quanto tempo de treino é "tempo suficiente"
A faixa segura para tentar uma primeira ultra de 50 km, segundo treinadores que trabalham com amadores, é de 18 a 24 semanas de preparação específica, depois de pelo menos um ano correndo de forma regular. Quem já fez uma ou duas meias maratonas e corre quatro vezes por semana tem base. Quem corre há seis meses e nunca passou de 10 km, não. Esse é o filtro honesto.
Nessas 18 a 24 semanas, três coisas precisam acontecer:
- O treino longo precisa subir gradualmente, com saída entre 20 e 25 km e teto entre 35 e 40 km. Ninguém treina 50 km antes da prova. Você simula a distância no acumulado da semana, não num único dia.
- Os volumes semanais precisam crescer. Quem chegava a 40 km por semana precisa fechar picos de 70 a 80 km nas três semanas mais pesadas. Isso é o que ensina o corpo a degradar lentamente.
- O treino tem que incluir caminhada planejada. Em ultra, todo mundo caminha. Os fortes caminham nas subidas e nos postos de hidratação por estratégia, não por fraqueza. Treinar a transição entre correr e caminhar economiza energia e protege as articulações.
A frequência cardíaca, durante quase todo o treino longo, fica na zona 2. É o ritmo em que você consegue conversar frases inteiras sem ofegar. Quem treina ultra forte demais nos longos chega quebrado na prova.
O que dói (e o que não dói tanto quanto dizem)
A dor da ultra não é a dor da maratona multiplicada. É outra dor. Na maratona, o corpo bate o muro por volta do km 32 quando o glicogênio acaba. Na ultra, o glicogênio também acaba, mas depois ele se reorganiza porque você comeu de verdade durante a prova, e o que dói passa a ser a estrutura: pés, joelhos, lombar, cabeça.
O pé é o lugar que mais surpreende quem nunca fez. Bolhas em locais inéditos, calo que escorrega, unha preta, sola pulsando de quem ficou quatro horas seguidas em pé. O par certo de meias antibolha, o tênis confortável (não o mais leve, o mais confortável) e o cadarço refeito sem aperto excessivo resolvem a maior parte. Quem usa o mesmo tênis do treino longo na prova evita 80% dos problemas de pé.
A cabeça, por outro lado, é o limitador real. Lá pelo km 35 ou 40 vem uma hora ruim. Você duvida do que está fazendo, calcula o tempo de táxi até a chegada, ensaia frases para justificar o abandono. Quem segue caminhando, comendo açúcar e bebendo água, sai dessa janela em 20 a 40 minutos. Quem para no posto e senta numa cadeira para "pensar", normalmente abandona. É contraintuitivo, mas a regra é simples: continue se mexendo.
Alimentação durante a prova: regra dos 60 gramas
A diferença entre quem chega bem e quem chega arrastado na ultra costuma estar na boca, não nas pernas. A regra que treinadores brasileiros vêm adotando é simples: 60 gramas de carboidrato por hora, distribuídos a cada 20 ou 30 minutos. Isso significa um gel, ou meia banana, ou um punhado de tâmaras, ou um pedaço de batata cozida com sal. Não importa muito o formato, importa a constância.
O estômago, quando você corre por seis ou oito horas, fecha. Quem espera ficar com fome para comer, come tarde demais. O método que funciona é cronometrado, não intuitivo. Coloque despertador no relógio se precisar. E treine isso nos longos, porque comer correndo é uma habilidade que se aprende.
Hidratação segue a sede no clima ameno e fica mais agressiva no calor, mas a regra geral é beber entre 400 e 600 ml por hora, alternando água com bebida isotônica para repor sódio. Câimbra em ultra raramente é só falta de água. Costuma ser combinação de baixo sódio, fadiga muscular acumulada e ritmo errado nos primeiros quilômetros.
Provas brasileiras que servem como porta de entrada
O Brasil tem hoje pelo menos uma ultra de estrada ou trail em quase todo fim de semana entre março e novembro. Para quem quer começar, vale procurar provas com cortes longos, percurso menos técnico e estrutura de postos a cada 5 ou 7 km.
A Ultramaratona Internacional de Indaiatuba, que acontece neste sábado no Parque do Mirim, é um bom exemplo do formato que funciona para estreantes: percurso em circuito, base fixa para deixar a mochila, possibilidade de parar e voltar a cada volta. Provas em circuito tiram o medo logístico de quem nunca correu além da maratona.
Outra opção interessante para quem ainda está na dúvida é o formato virtual. O Desafio Suzy Ruas, que está com edição rumo à Maratona de Berlim, permite testar a distância em casa, no seu ritmo, com prazo de semanas para completar. Ultra virtual não substitui ultra presencial, mas é um termômetro honesto do que seu corpo aguenta antes de pagar inscrição cara em prova de calendário.
Para quem quer trail, provas como o WTR Agulhas Negras em Resende trazem o desnível e o terreno técnico que diferenciam ultra de trail de ultra de estrada. O treino para cada uma é distinto. Não tente migrar de uma para outra na mesma temporada.
O que muda depois da primeira
Quem termina a primeira ultra raramente para na primeira. Não é vício, é descoberta. A pessoa percebe que o limite que ela imaginava ter, baseado em maratonas anteriores ou em conselhos antigos, era mais baixo do que o real. Esse efeito psicológico é o que mais transborda para o resto da vida. Acordar cedo no trabalho deixa de ser difícil. Reunião de quatro horas vira passeio. Decisão difícil vira só uma decisão.
O contraponto, que ninguém fala muito, é que ultra desgasta. A recuperação após uma primeira de 50 km leva entre três e seis semanas para o corpo voltar a treinar forte. Quem ignora isso e tenta engatar logo outra prova grande paga depois, com lesão ou queda de performance que dura meses. A regra antiga "uma ultra por semestre no primeiro ano" continua valendo.
O recado honesto
Ultramaratona não é prova para quem quer impressionar amigo. É prova para quem aceita gastar seis a doze horas consigo mesmo, longe de tela, longe de notificação, perto de um pensamento que não tem como fugir. Quem entra por esse motivo, fica. Quem entra por causa do medalhão, abandona no km 30 e nunca mais volta.
Se você está há um ano correndo, fez pelo menos uma meia maratona, tem tempo para 18 semanas de treino e quer entender por que tanta gente comum está virando ultramaratonista no Brasil, escolha uma prova de 50 km com corte de 12 horas, comece a base na semana que vem e pare de adiar. A linha de chegada da sua primeira ultra é o lugar mais barato que existe para descobrir uma versão sua que você ainda não conheceu.