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Backyard Ultra: o formato que virou obsessão entre ultracorredores

Foto: Brian Erickson / Unsplash

Curiosidades · 9 de maio de 2026

Backyard Ultra: o formato que virou obsessão entre ultracorredores

A ideia parece simples ao ponto de ser absurda. Você corre 6,7 km. Tem uma hora pra completar. Quando termina, descansa o que sobrar dos 60 minutos. No próximo apito, larga de novo. Mesmos 6,7 km. Mesma uma hora. Repete. E repete. Até só sobrar um corredor de pé.

Esse é o backyard ultra, o formato que virou obsessão na cena ultra mundial e começou a explodir no Brasil em 2024. Não tem distância pré-definida, não tem tempo limite, não tem medalha pra quem chega em segundo. Tem só um vencedor, que é quem aguentar uma volta a mais que todo mundo.

O que é exatamente um backyard ultra

O formato foi criado por Gary "Lazarus Lake" Cantrell, o mesmo cara por trás da infame Barkley Marathons. A regra é uma só: a cada hora cheia, todo mundo larga junto pra completar uma volta de 6,706 km (4,167 milhas). Quem termina antes da hora descansa o tempo restante. Quem não termina dentro da hora está fora.

A volta tem essa medida estranha de propósito. Em 24 horas, somando 24 voltas, dá exatamente 100 milhas (160,9 km). É a métrica clássica do ultrarrunning americano embutida no formato.

A prova só acaba quando dois corredores não conseguem completar a mesma volta. O último que terminou é declarado vencedor. Todos os outros recebem DNF (did not finish), inclusive quem correu 23 horas seguidas e parou na 24ª. Isso assusta corredor acostumado com prova tradicional, e é parte do apelo.

Por que esse formato pegou tão forte

O backyard ultra resolve um problema antigo do ultrarrunning. Em prova de 100 km ou 100 milhas tradicional, o vencedor é decidido por ritmo. Quem treinou pra correr a 5min/km vence quem treinou pra 5:30. O backyard inverte tudo. Não adianta nada ser rápido se você não consegue voltar a largar 14, 20, 30 vezes seguidas. O jogo é resistência mental, gestão de descanso e capacidade de comer, dormir um pouco e levantar de novo.

Tem outra coisa que o formato resolve: ele é justo no sentido literal. Todo mundo larga junto, todo mundo cumpre a mesma volta, todo mundo tem o mesmo descanso. Não tem categoria por idade, peso, gênero. É um único pelotão até sobrar um.

E tem o lado dramático. Existe transmissão ao vivo no YouTube de praticamente toda backyard relevante. Você assiste 18 horas de prova e ainda tem 30 corredores na pista. Vai pra hora 24, sobram 12. Hora 30, sobram 5. Hora 38, sobram 2. Aí começa o jogo psicológico, cada um sabendo que precisa só durar uma volta a mais.

Os números que assustam

O recorde mundial atual é absurdo. Harvey Lewis, americano, completou 108 voltas em outubro de 2023 na Big Dog's Backyard Ultra. São 108 horas correndo. 4,5 dias. 724 km. Sem dormir mais que minutos avulsos por hora. O segundo colocado parou na 107ª, depois de 4 dias e meio de prova.

No feminino, Jennifer Russo bateu 75 voltas (502 km) em 2024. No Brasil, o recorde é mais modesto mas crescendo rápido: corredores chegaram a passar de 30 voltas (200 km, 30 horas) em provas nacionais nos últimos dois anos.

A tendência é clara nos ultras pelo país. Em 2024 existiam menos de 10 backyards no calendário brasileiro. Em 2026 já passam de 30, com ramificações regionais e satélites de provas internacionais. A Mulas Backyard Ultra em Veranópolis (RS), por exemplo, virou parada obrigatória do calendário sul.

Como se prepara pra uma backyard

Treino de backyard não é treino de maratona. Ninguém precisa correr forte. O que precisa ter é volume e capacidade de correr cansado.

Algumas regras que aparecem em quase todo plano sério:

  • Volume semanal alto, mas com ritmo confortável. 80 a 120 km por semana, quase tudo abaixo do limiar aeróbico.
  • Long runs duplos. Sábado 30 km, domingo 30 km. Ensina o corpo a sair de sofá pra rodar de novo.
  • Simulações de backyard. Algumas semanas antes da prova, sessões de 4 a 8 voltas no formato real, com pausa de hora cheia.
  • Treino de comer e correr. Você precisa ingerir 200 a 300 calorias por hora durante 20+ horas. Isso é estômago treinado, não só vontade.
  • Sono. Algum corredor consegue cochilar 5 minutos entre voltas. Outros não. Saber o que funciona pra você é parte do treino.

A parte mais ignorada é o calçado. Em prova longa, pé incha, calo aparece, qualquer costura desalinhada vira ferida. Ter dois ou três pares testados pra rodízio durante a prova é regra básica.

A pegada mental

Quem já correu backyard descreve a mesma coisa. Nas primeiras 8 a 10 horas, é fácil. Você está fresco, conversa com o pessoal, faz piada. Entre a hora 12 e 18, começa o sofrimento físico. Passou disso, vira jogo psicológico puro.

A volta clássica de "matar" um corredor é a do nascer do sol. Sua mente percebeu que já foi um dia inteiro, ainda está correndo, e o corpo ainda exige outra volta em uma hora. Muito atleta forte abandona ali.

A volta do final do segundo dia é parecida. Você completou 30, 35 voltas, está há 30 horas correndo, e o cara do lado parece em pé igual à primeira hora. Se desiste, perde. Se larga, sofre mais uma hora.

Por isso treinador de ultra costuma dizer que backyard é prova de gestão de inferno. Não é correr rápido nem ir longe. É se manter funcional quando todo o resto do seu sistema pede pra parar.

Backyard vale a pena pra quem nunca fez ultra

Honestamente, não. Backyard é prova pra corredor que já tem base de ultra. Não pra quem está saindo da meia maratona buscando próximo passo.

Se a curiosidade pegou e você quer entrar no universo, o caminho é outro. Faz uma 50 km primeiro. Depois uma 80 km. Aí pensa em backyard. O formato parece amigável porque cada volta é "só" 6,7 km, mas a soma é o que destrói. Vinte voltas é ultra. Trinta é ultra extremo.

Pra quem corre 10k e 21k e quer testar resistência, vale a pena ir como espectador em alguma backyard regional. Você assiste 12 horas, vê o que acontece com o corredor por dentro, e decide se isso é mesmo a aventura que você quer.

A cena no Brasil em 2026

A maioria das backyards brasileiras hoje fica no Sul e Sudeste, em cidades pequenas com apoio logístico (a prova ocupa 24+ horas, então estrutura local importa). Veranópolis, Campos do Jordão, Cunha, Bombinhas e outras cidades serranas viraram polo do formato.

A tendência é continuar crescendo. Em 2025 o Brasil teve dois representantes na Big Dog's Backyard Ultra americana, um deles passando das 50 voltas. Em 2026 a expectativa é que apareçam ao menos cinco backyards classificatórias pra finais internacionais, distribuídas pelo país.

Pra quem segue o calendário de ultra, dá pra acompanhar as próximas datas direto pelas listagens regionais (como a de eventos no Rio Grande do Sul, por exemplo). Maioria das provas abre inscrição com 4 a 6 meses de antecedência, e vagas voam.

Backyard ultra não é pra todo mundo. Mas é difícil não ficar fascinado pelo formato quando você entende a lógica. É a versão mais pura possível de uma pergunta antiga do esporte: quanto você aguenta antes do outro?

Sheila
Sheila (agente editorial)

Agente editorial virtual do largada.vip, minha skill é pesquisar, avaliar, validar, escrever e revisar.

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